A pergunta chega quase sempre na mesma forma: “quais suplementos eu preciso tomar com a caneta?”. A resposta honesta começa desmontando a palavra “preciso”. Nenhum suplemento é obrigatório para todo mundo. Suplementação é conduta individual, e depende do que você já come, do resultado dos seus exames e da dose que está usando.

O que dá para dizer de forma geral é o que costuma ser avaliado, e por quê. Na prática, quatro frentes entram no radar de quem usa a medicação: proteína, fibra, hidratação e alguns micronutrientes que podem ficar baixos quando a ingestão cai muito. Suplemento nenhum substitui comida de verdade, e nenhum substitui os dois pilares do tratamento, proteína suficiente e treino de força. Ele preenche lacuna, não cria resultado.

Suplemento não é atalho, é preenchimento de lacuna

A lógica que uso com as pacientes é simples: primeiro se define o que a alimentação precisa entregar, depois se olha o que está faltando, e só então se pensa em suplemento para cobrir a diferença. Comprar pote antes de olhar o prato é começar pelo fim.

Isso importa mais ainda no tratamento com a caneta, porque o apetite reduzido cria lacunas reais. A pessoa não deixa de comer bem por falta de disciplina; ela come menos porque a medicação reduz a fome, e nesse “menos” às vezes falta proteína, fibra ou algum micronutriente. O suplemento certo, no caso certo, resolve essa lacuna específica. O suplemento comprado por indicação genérica de internet resolve o marketing de quem vendeu.

Proteína: o suplemento mais útil, e por quê

Se há um suplemento que costuma fazer sentido nesse contexto, é a proteína em pó, e a razão é prática. As referências para preservação de massa magra durante o emagrecimento ficam em torno de 1,2 a 1,5 g de proteína por quilo de peso por dia. Com o apetite baixo e o estômago que enche rápido, alcançar isso só com comida vira um desafio real.

É aí que o whey ou um isolado proteico ajudam: eles entregam bastante proteína em pouco volume, o que é exatamente o que falta quando não cabe mais comida no prato. Um shake não enjoa como um segundo filé, e desce mais fácil num dia de náusea. Mas vale ser clara: proteína em pó é comida em forma prática, não um produto mágico. Ela vale como ferramenta para fechar a conta de proteína do dia, não como algo que você toma “porque usa a caneta”.

Fibra: quando a comida não fecha a conta

A prisão de ventre é um dos efeitos mais comuns do tratamento, e a primeira linha de tratamento dela é alimentar: fibra e água. As referências de fibra ficam em torno de pelo menos 25 g por dia para mulheres e 30 g para homens. Quando a alimentação, já reduzida pelo apetite baixo, não alcança isso, um suplemento de fibra solúvel, como o psyllium, pode entrar para cobrir a diferença.

Duas ressalvas que faço sempre: fibra suplementar sem água suficiente piora a constipação em vez de aliviar, e ela é a segunda escolha, depois de tentar aumentar a fibra da comida. Detalhei o manejo em prisão de ventre com Mounjaro.

Hidratação e o básico que some sem a gente notar

A referência de hidratação no tratamento é de mais de 2 litros de líquido por dia, e essa necessidade sobe em dias de exercício ou em qualquer episódio de vômito e diarreia. Como a sensação de sede costuma cair junto com a de fome, muita gente passa a beber bem menos sem perceber. Em episódios de vômito ou diarreia, a reposição de líquidos e, quando indicado, de eletrólitos, entra no radar. Nada disso é sofisticado, e é justamente o básico que costuma ser esquecido.

A ordem de prioridade da suplementação no tratamento A base é sempre comida de verdade e água, mais de 2 litros por dia. Sobre essa base, o que costuma ser avaliado, em ordem: proteína em pó para fechar a meta de 1,2 a 1,5 g por quilo quando o apetite não permite; fibra solúvel quando a comida não alcança 25 a 30 g por dia; e micronutrientes como vitamina B12, vitamina D, cálcio e ferro apenas conforme exame, nunca por indicação genérica. A ORDEM QUE FAZ SENTIDO De baixo para cima: só se sobe quando a base está resolvida. Micronutrientes B12, vitamina D, cálcio, ferro: conforme exame Fibra quando a comida não fecha 25 a 30 g por dia Proteína em pó para fechar 1,2 a 1,5 g por quilo no apetite baixo Comida de verdade e água mais de 2 litros por dia. A base de tudo. Regra da casa: exame antes do pote. Micronutriente se repõe pelo que o exame mostra, não pelo que o anúncio promete.

Micronutrientes: o que entra no radar quando a ingestão cai

Quando a quantidade de comida diminui bastante e por bastante tempo, alguns micronutrientes podem ficar abaixo do ideal. O consenso de suporte nutricional para quem usa esse tipo de medicação cita, entre os que merecem atenção, vitamina D, vitamina B12, cálcio, ferro, folato e magnésio.

O ponto central, e a diferença entre orientação séria e venda de suplemento, é este: micronutriente se avalia por exame de sangue, não por sintoma vago nem por indicação padrão. Repor ferro em quem não tem falta de ferro não ajuda e pode fazer mal. Por isso a conduta correta é dosar, ver o que está baixo, e repor o que precisa, na quantidade que precisa. É individual por definição.

E a creatina? E o colágeno?

São as duas perguntas que mais aparecem, porque são os dois suplementos que mais se vê recomendados de forma genérica para quem usa a caneta. Vale separar os dois, porque não estão no mesmo lugar.

A creatina é um dos suplementos mais estudados quando o assunto é força e massa muscular associada ao treino. Como preservar músculo é uma das metas centrais do tratamento, ela pode fazer sentido em quem treina, mas o efeito dela não é substituir a proteína nem o treino: é somar a eles. Sem treino de força, o suplemento sozinho não faz o trabalho. E, como qualquer suplemento, entra depois de avaliar o seu caso, não por regra geral.

O colágeno costuma ser vendido com a promessa de firmeza da pele durante o emagrecimento. É importante ser honesta aqui: como fonte de proteína para preservar músculo, ele é uma proteína de qualidade inferior à do whey ou da comida, porque é incompleto nos aminoácidos que mais importam para o músculo. Se a sua preocupação é massa magra, o dinheiro rende mais em proteína completa. A evidência sobre pele é bem mais modesta do que o marketing sugere.

O padrão se repete: nenhum dos dois é obrigatório, nenhum substitui comida e treino, e a decisão é individual.

A regra que resume tudo: exame antes do pote

Se você guardar uma frase deste texto, que seja esta. A sequência que evita gastar dinheiro à toa e, mais importante, evita se expor a excesso é: alimentação primeiro, exame para enxergar as lacunas reais, e suplemento só para o que ficou comprovadamente faltando. Tomar um combo de suplementos “porque usa a caneta” é começar pela ponta errada, e às vezes é tomar o que não faltava e deixar de tomar o que faltava.

Montar essa conta, quanto de proteína o seu dia realmente entrega, quais lacunas os seus exames mostram, o que vale suplementar e o que é só marketing, é parte central do acompanhamento nutricional no tratamento. Se você quer parar de adivinhar e passar a decidir com base no que os seus números mostram, .

Assista: o que costuma ser avaliado na suplementação

Uma delimitação necessária

Este texto trata de nutrição e do que costuma ser avaliado, em caráter educativo. Ele não prescreve suplemento, dose nem marca, e não orienta início, interrupção ou ajuste de dose de medicamento. Alguns suplementos têm interações e contraindicações, e a dose correta depende dos seus exames e do seu quadro. Essas definições são do profissional que acompanha você, nutricionista e médico, e nada aqui substitui essa avaliação individual.

Fontes

  • Sievenpiper J.L., Ard J., Blüher M. et al. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: an expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity Pillars, 2025;17:100228. doi:10.1016/j.obpill.2025.100228
  • Rubino D.M. et al. Gastrointestinal tolerability and weight reduction associated with tirzepatide in adults with obesity or overweight with and without type 2 diabetes in the SURMOUNT-1 to -4 trials. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025;27(4):1826-1835. doi:10.1111/dom.16176
  • Jastreboff A.M. et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, 2022;387(3):205-216. PMID 35658024
  • Mounjaro (tirzepatida), bula do paciente, Eli Lilly do Brasil / Anvisa. Consultar bula